sexta-feira, março 31, 2006

Sonhar sempre!

Sonhar sempre!,
até quando não souber
que está sonhando,
e seja qual for o sonho,
mas,
nem sempre
sonhar um sonho só,
e continuar sonhando
quando o galo
estiver cantando,
e continuar o sonho
mesmo quando o café
não puder ser mais ralo,
não puder ter sabor pior,
e sonhar deitado, sentado,
e sonhar de pé
quando está esperando,
sonhar
que chegou a sua vez
de chegar ao guichê
e se apossar
do sonho tão sonhado
que tiraram de você,
e sonhar até
quando de sonho
houver escassez no mercado,
questão de oferta e procura,
sonhar que qualquer mistura
há de ser a mistura certa,
seja a mais rara,
a mais clara,
a mais escura,
sonhar de olhos fechados,
mas,
um sonho
que de olhos abertos
não pára de ser sonhado,
sonhar
aquele sonho tão bonito
que faz querer
não dispertar do sono,
faz querer
que o sono seja infinito,
e continuar sonhando
quando estiver disperto,
sonhar um sonho
por mais incerto
que o sonho seja,
por mais
que seja só um sonho,
sonhar sem se importar
se é um sonho distante
ou se um sonho
que já está bem perto,
sonhar... sonhar... sonhar...
ter sonho a todo instante,
sonhar até
que tem um sonho
se um sonho não tiver!

quinta-feira, março 30, 2006

O tempo passa...

Qualquer peripécia
de mulher famosa,
Catarina, Lucrécia, Messalina,
em prosa narrada
me fazia
esbanjar adrenalina;
qualquer foto
de modelo ou vedete
era um terremoto
e não resistia ao apelo,
pintava o sete
e derramava
meus votos de saúde,
e derramava amiúde;
qualquer festa
que via e ouvia
por fresta ou fechadura
me enchia de bravura
e me fazia
manejar minha espada
que não tinha mesmo bainha;
as bacanais
que só vinham a mim
após e pelos jornais
me faziam
derramar a libido,
e assim os Carnavais
de tirar fora halo,
e falo de santo,
dos quais fui excluído
por ser menor
ou um tanto sem grana;
quanta banana
foi descascada a esmo
porque outra fruta
era mesmo muito rala,
quanta luta
desenhada em revista
consumiu o meu melhor,
e sem suor,
que nem suar era preciso,
e bastava pista,
lembrança, aviso, pala
e voltava ao serviço
e nem ficava exaurido,
é isso aí...
mas,
esse tempo já dista,
aqui e agora,
é hora da fala mansa
e da bengala,
e estaria perdido,
teria perdido a graça
sem a esperança
em comprimido
que a drogaria me fia!,
que não dá
pra pagar à vista,
é...
o tempo passa...

quarta-feira, março 29, 2006

Queria ser o vento

Queria ser o vento
que volta e meia
se solta sem receio,
censura e estapeia o estandarte
no meio da batalha,
que do massacre espalha
a loucura e o cheiro acre,
que se esgueira e invade
trincheira e baluarte,
vento que a queimada denuncia
e anuncia a tempestade
que está por vir,
que alenta o barco,
enfuna a vela da escuna,
mas,
sem pedir permissão,
bate em retirada
e inventa a calmaria,
vento que não respeita
prumo, marco ou regalia,
nem aceita pacto
com rumo e direção,
vento que a flor acaricia
com prazer e pudor,
entretanto,
zomba do cacto,
tomba e prostra o jatobá,
vento que venta
quando quer ventar,
quando quer,
mostra a sua sanha
e destrói e arrasa
e arranca casa do lugar,
mas,
a duna constrói com arte,
queria ser o vento
que vem e parte
quando bem quer,
que faz arrepio,
faz tremer de frio,
que é capaz
de arrefecer qualquer calor,
vento que assanha os pêlos
e os cabelos do meu amor!

Esse mandinguento

Está sempre pronto
pra mais um ponto
esse mandinguento,
e nunca é ponto sem nó,
e não é só,
garante
que não faz de bocó
nenhum semelhante
pois entende
que não tem nenhum,
por isso,
está nesse ramo
e vende feitiço e simpatia
a torto e a direito,
e nem morto
se entrega ou rende
quando a magia pega,
e não se satisfaz
só com bruxaria,
explora a alquimia
e melhora a renda,
negocia adamo e panacéia,
e a venda é um espanto,
rende tanto
que o sujeito
meteu na idéia
que é o melhor,
o mandinguento mor,
e de tudo é capaz de fazer
pra nunca mais
deixar de ser!

terça-feira, março 28, 2006

Essa louca não tem limite!

Não achei coisa igual
em compêndio nenhum,
com fogo de palha
ela faz
um incêndio brutal
e se espalha
mais que boato,
que não é só boca a boca,
é tato a tato,
corpo a corpo,
leito a leito,
evite essa louca!,
essa louca não tem limite!,
não lhe serve
a paixão intensa,
cheia de densas emoções,
não... não lhe serve...
só lhe ferve veias e artérias,
só lhe incendeia as entranhas
a luxúria pela luxúria,
a fúria e a miséria
de espúrias sensações,
a sanha de cios desvairados,
ela não quer
que você zele por ela,
não quer que você
seus lábios sele
com beijos apaixonados,
não quer
que um arrepio
revele os desejos dela,
ela não quer o prazer
que um gemido extravasa,
ela quer na pele
marca de ferro em brasa,
quer o berro sofrido
de um ser que se esfacela!

E o macarrão encheu lingüiça

A segunda é sem lei
e o que abunda
não prejudica,
sobretudo figa, fita e birita,
disso tudo eu já sabia
pois é coisa antiga,
agora também sei,
se um ingrediente falta,
até o protagonista do prato,
a pé ou na mão a gente não fica,
a gente Não Muda
Nem Sai de Cima do horário,
vai por mim,
algum especialista
em pulo-do-gato culinário
bota logo outro em pauta,
e foi exatamente assim,
o camarão deu bolo,
mas,
como não é tolo
e tem raça o macarrão,
e só gostava de rolo
quando era massa bruta,
foi à luta e achou solução,
encher lingüiça,
eis metade da missa,
meu confrade;
na metade seguinte,
foi tão feliz
enchendo lingüiça,
tão fundo no requinte,
que tá todo mundo pedindo bis!

sábado, março 25, 2006

Estou farto de mim

Estou farto dessa lista
com o muito que falta,
dessa falta de dindim,
desse quarto chinfrim,
Copacabana no aluguel
e vista suburbana,
esgoto a céu aberto,
fedor e fumaça na janela,
e dela eu flerto
com um urubu maroto
que tá de olho na carniça,
na criança que tá de molho,
como está
minha escassa esperança
de morar perto do mar
e me excitar
com boto traçando tainha,
estou com o saco cheio dela,
dessa Estela mortiça
com sabor de chuchu,
manequim cinqüenta
e meio amarela,
que a praia não vem cá
e ela nem tenta
chegar lá
pra não entrar na vaia,
não tenho mais paciência
pra escutar
essa freqüência modulada
que produz a voz esganiçada
do povo dessa viela
que não tem água
nem tem luz,
não agüento mais o perdigoto
desse gerente escroto,
um zé vacilão,
baba-ovo e arauto do patrão
que me trata a pontapé
pra fazer jus à promoção,
enfim,
estou farto de mim,
dessa vidinha
e desse outro parto
que aí vem
que a gente não tem
nem pra camisinha!

Moreno amor

Mitiga minha solidão,
morena,
com o moreno veneno
que expele a sua pele,
instiga,
morena,
esse dia ameno
que não temdor de espinho
nem o prazer de colher flor,
fustiga,
morena,
essa monotonia
que entedia os dedos,
os distancia do pinho
e do bom sabor da canção
me faz até ter pavor,
mitiga,
morena,
esse meu medo,
esse arremedo de vida
vivida sem graça
e sem emoção,
por favor,
moreno amor,
faça bater o meu coração!

quinta-feira, março 23, 2006

Sozinho um gari doura a Sapucaí

Desista da besteira
de ficar infeliz,
de levar a sério
a falta de luxo,
agüente o repuxo!,
aliás,
é verdade
que o luxo
é capaz de fazer vista,
mas,
vista faz
à maneira do verniz!,
portanto,
enfrente o desafio,
não se grile com realidade,
assimile a melancolia
e não reze pra fidalguia
não vir ao desfile,
que venham
Império e Imperatriz!,
se preze e não torça
pra que em fevereiro
o Salgueiro esteja murcho,
pra que não dê a Mangueira
fruta gostosa
e pra que a Grande Rio
não venha caudalosa
e escoe
qual ribeiro pela pista,
ou, até,
pra que a Padre Miguel
venha sem fé e fervor,
se preze e não torça
pra que venha singela
e sem força
pra se abrir a Portela
e pra que não voe a Beija-Flor,
não faz sentido
essa coisa maluca
de pedir a desunião
da União da Ilha,
da Unidos da Ponte,
da Tijuca e de Vila Isabel,
preste atenção,
é fonte gratuita de animação
o ardor da torcida,
é fonte gratuita
de esplendor e inspiração
essa maravilha de Céu,
portanto,
esqueça ibope,
Tradição,
tope seu desafio
e fantasie a passarela
com sua emoção,
agora é a hora
de aproveitar o embalo
e mostrar no pé
que pode ser também
a tal do Carnaval
quem é bamba
no samba do dia-a-dia,
é hora de expor
seu enredo cotidiano
que começa bem cedo,
antes até do canto do galo,
e só finda
quase de madrugada,
e, entra ano, sai ano,
um pingo de folga,
se tanto,
empolga um domingo,
dia santo
ou feriado nacional,
é hora de mostrar
o desassombro e a garra
com que
você leva na marra
o morro nos ombros,
e não protesta
nem pede socorro,
aí,
modesta Escola,
bola pra frente!,
cresça e apareça
com sua gente,
e não esqueça,
se uma andorinha sozinha
não faz verão,
sozinho um gari
doura a Sapucaí
de vassoura na mão,
e sem subvenção!

Deixe passar o corso

Moço,
deixe passar o corso
que vai indo
pro arquivo morto
levando outro bando,
vai quem foi esquecido
na posta-restante,
quem não suportou
o desmedido esforço
do exercício findo
e quem não agüentou
o balanço no dorso
do passivo circulante;
moço,
não ouse atrapalhar
o avanço do corso
que vai indo
pro arquivo morto
levando outro bando,
vai quem fez o jogo
e perdeu a aposta,
quem tropeçou
em vício, fogo de assalto,
e quem brigou em alto-mar
mas acabou
afundando aqui na costa;
moço,
não se atreva
a bloquear o corso
que vai indo
pro arquivo morto
levando outro bando,
vai quem rolou
quando a encosta desceu,
quem deu
um salto no escuro
e se espatifou no chão
e quem deu duro
mas não alcançou o pão,
aí,
moço,
nada de zombaria
ao passar o corso
que vai chegar o seu dia!

Vai-da-valsa do Maracanã

Cruzei o Maracanã
num divã
cujo estado dava dó,
e tão sujo
que dava asco,
e deparei
com mó de cascos,
frascos e quejandos,
e cruzei o Maracanã
com parcas velas
pra tantos presuntos,
e juntos, e aos bandos,
e crivados de marcas,
e as velas apagava o vento,
e remei
com um tasco de bandô
que nem sei
se era decô ou rococó,
e busquei alento
no meu aulo
sem brilho
e de uma nota só,
aí,
fiz fiasco,
pois,
fizeram a rota antes
dois grã-navegantes,
Aldir e Paulo Emílio,
e vestido o Aldir
de grão-capitão do Vasco,
então,
vestido de Mengão,
naveguei na água-benta
e fiz questão
de levar pimenta
pra temperar
agrião, hortelã e pimentão,
a rabeira da feira
que toda sexta-feira
bóia entre as bolhas
que nem as rolhas
das garrafas de pilóia
das minhas moafas,
meu esteio,
e não me fale em opróbrio,
se cale,
porra!,
que opróbrio
é ficar sóbrio
no meio dessa zorra,
ah... Maracanã,
rio do Paulo Emílio e do Aldir,
só dói quando ‘sou Rio’,
ah... Maracanã,
rio do Paulo Emílio e do Aldir,
só dói quando ‘sou Rio’!

terça-feira, março 21, 2006

Saiba curtir!

Beba seu drinque,
sua cerveja
sua batida de cachaça
com limão ou maracujá,
e brinque até se fartar,
ou seja,
finque o pé
e faça da vida um sarro,
mas,
saiba curtir!,
não faça batida de carro
que não é fruta esse abacaxi!,
vamos lá,
espero que você
venha comigo nessa luta,
que você
entre decidido nessa briga,
não dirija se beber,
e não esqueça a boa maneira
de brindar a pessoa amiga
na hora de ir embora,
a da saideira,
se ela tiver bebido,
mostre que é amigo,
exija que ela não dirija!

segunda-feira, março 20, 2006

Bicho-preguiça

Que preguiça!,
bicho,
você não se eriça
nem com fogo!,
bicho-preguiça,
se sufoca com o calor,
com o afogo de matar,
e não troca de posição
nem se abana
pra não precisar
balançar o abanador,
bicho-preguiça,
você não pede mão
pra não ter
de estender o braço,
só quer a banana
que lhe passo
se já vier sem casca,
olha e vê a borrasca,
mas se molha
só pra não ter
nem que se mexer!,
tanta preguiça,
bicho,
é de doer!,
e é rogo em cima de rogo
e mais rogo por cima,
tenha paciência!,
tanta indolência
é caso de polícia!,
nem se levantar
você se levanta
pra não precisar
se deitar outra vez,
e nem de carícia
de mês em mês
você quer saber
pra não ter que fazer amor,
por favor,
bicho-preguiça,
pára!,
e de mim disponha,
disponha sim!...
se vergonha na cara
quiser tomar,
eu sirvo
e sirvo gota a gota
pra você não se cansar!

sexta-feira, março 17, 2006

Essa água é que é água!

Essa água é que é água!,
e retórica não é não,
na prática,
se trata
da mais purinha
questão de gramática,
me mata-paixão!,
me mata-paixão
pela linda mulata!,
e vou nessa água,
vou passar da linha-branca
e chegar à amarelinha,
à azulzinha, à azuladinha,
e, com a alma eufórica,
vou me afogar em água-benta,
água-bórica, água-branca,
quando acabar essa água,
minha sede vai à luta
e outra inventa,
água-bruta,
água-de-briga, água-de-cana,
e, se bem me lembro,
água-de-setembro
e a antiga e bacana aguardente,
e minha sede avisa
que vai em frente
à procura de mais água,
água-que-gato-não-bebe,
água-que-passarinho-não-bebe,
água-lisa, água-pé, água-pra-tudo,
ou boa-pra-tudo,
aliás,
o melé cura-tudo,
se for preciso,
a gente consome
até aguarrás,
após,
retrós e tome-juízo,
pra manter
o pique borbulhante,
a extravagante isbelique,
e crislotique em seguida,
mas,
como na vida
não há só prazer,
também há bate-bate,
que venha alicate,
que venha martelo,
ou melhor,
três-martelos,
pra ver correr
suor-de-alambique
e suor-de-cana-torta,
e pode vir corta-bainha,
danadinha, doidinha, marvadinha,
santinha, teimosinha,
branquinha, mulatinha,
que seja
em nanicos agavios
de bico e cerveja,
obra de homeopatia,
que venha assovio-de-cobra,
a-que-incha
ou a-que-matou-o-guarda,
bom cupincha
que bebia de farda,
e pode mandar amorosa,
ardosa, dengosa, chica e chica-boa,
cumbica e canjica,
baga e apaga-tristeza,
e até baronesa em pessoa,
que realeza não me intimida,
e que graça teria a vida
sem cachaça?!

quinta-feira, março 16, 2006

Você já nasceu café pequeno!

De um argueiro
você faz um cavaleiro,
de discussão de nada
faz campo de batalha,
faz tempestade em copo d’água
e a maior bulha
por agulha, grampo ou tostão,
parece que você
vai a pé até Manágua
e na mão levando tralha,
e, na verdade,
vai de frescão
e vai saltar
bem antes da Baixada,
você assusta
e aperreia meio mundo
dando a impressão
que vai escalar o Aconcágua
e a seguir o Himalaia,
e sem parada,
e, na realidade,
vai subir só a escada
do primeiro andar pro segundo,
e nem de saia justa está,
você tem chiliques e tremiliques
por tuta-e-meia,
esperneia e se esgoela
pra só pagar meia-entrada
com carteira de estudante vencida,
fica puta da vida
e sai na porrada
por besteira e por titica,
se descabela
por roscas e chorumelas,
explode por bolacha-quebrada,
emenda os bigodes
por um simples abana-moscas,
esculacha e roda a baiana
por qualquer prenda de borra,
faz uma zorra daquelas
e só está em jogo quixiligangue,
vermelha de sangue,
se ajoelha e faz rogo
por um mimo de merda,
se herda bagulho ou porcaria,
faz barulho
e de orgulho se entulha,
você faz das tripas coração,
fica de tanga e mergulha
no limo do Mangue
atrás de ninharia e bugiganga
e é capaz
de ouvir trovão em dia ameno,
sabe de uma coisa...
você já nasceu café pequeno!

Ex-mulher com maridão adinheirado

Como a ex-mulher
tá de marido novo
e numa muito boa,
e sigo um zé-povo
desprovido de numerário,
ou seja,
sigo sem nenhum!,
vou lhe pedir o necessário,
coisa à-toa!,
o do rango, o do celular, o do aluguer,
o do carango zero
que não quero mais
dar sopa por aí
ao andar a pé,
vou pedir o suficiente
pra pagar empregada,
pra trocar o guarda-roupa,
que repetindo o vestuário
pareço estar de farda,
vou pedir o suficiente
pra financiar cerveja, noitada
e pra dar esmola na igreja,
pois,
quem rola essa dívida
fica com a alma lívida
e com a vívida sensação
de estar entrando numa fria,
quer dizer,
numa muito quente,
é... meu irmão,
pense o que quiser,
mas,
ex-mulher com maridão adinheirado
é fado tão bom
quanto ganhar na loteria!

quarta-feira, março 15, 2006

Vou dar nome aos bois

Mesmo havendo boi,
mó de boi,
uma pá de boi,
minha gente,
não é necessariamente
questão lá do sertão,
e nem viola tem,
e só disse o que disse
pra não ser omisso
nem inconseqüente!,
portanto,
bola pra frente,
mas,
sei que na linha tem boi,
por isso,
vou logo dizendo
que não sou boi de piranha
nem do tipo que apanha
qual boi ladrão,
e participo
que dou nome aos bois
pra saciar
a curiosidade de vocês,
e quem não gostar,
mesmo sendo da cidade,
que vá amolar o boi,
e vou dar
dois nomes de uma vez,
um se chama Catuta
e o outro se chama Braseiro,
mas,
na verdade,
é quase tudo que sei...
pois,
ainda não deu pra saber
qual dos dois
foi primeiro à luta,
se levou Braseiro
Catuta no bagageiro
ou se levou Catuta
Braseiro atrás,
aliás,
ainda não sei
nem sei
se hei de saber
qual dos dois
tem mais idade,
qual dos dois
mais come,
qual dos dois é a fome,
qual dos dois
é a vontade de comer,
qual dos dois
ganhou mais fama,
qual dos dois
se deitou na cama,
qual dos dois
mais rama consome,
ainda não sei
nem sei
se hei de saber
se um dos dois trama
e o outro executa,
se um dos dois fala
e o outro
se cala e escuta,
ainda não sei
nem sei
se hei de saber
se um dos dois
no outro se encosta,
se um dos dois
gosta mais da fruta,
se um dos dois
pode que pode
até não poder mais
e o outro vai atrás
porque na frente
não pode ir,
e sei mais,
e vocês hão de convir
que já é até demais,
pois sei que não são só dois
e que quaisquer dois
não são assim tão iguais
nem tão diferentes assim,
e só dei dois nomes
porque a mim
só dois nomes deram
quando me disseram
que dariam nome aos bois!

terça-feira, março 14, 2006

Ninguém vai aturar a fedentina

Achei que era o maior,
que meu cacife
suficiente era
e perguntei ao Cacá,
pensador mor
lá da minha esquina:
“por que
a gente não borrifa
patifa e patife
com extrato de gambá
pra poder usar o olfato
e identificar essa galera
no primeiro contato
e defender nosso dinheiro
de tanta patifaria?”,
quem diria...
gente fina,
mas,
fiz essa besteira!,
entretanto,
e pra meu espanto
pois não é comum,
ele me disse
com algum tato:
“não se encafife não,
Luiz Moreira,
mas,
é burrice sua sacação,
e burrice
que você nem imagina,
porque não dá!,
e não borrife não!,
que se borrifar,
mesmo porção menor
de nossos patifes,
vamos ficar na pior,
ninguém vai aturar a fedentina!”

segunda-feira, março 13, 2006

Flores que mercam amores

Margarida branca,
e negra, e mestiça, e amarela,
Margarida
que na negra rua se abanca
e nua entra na liça,
Margarida bela, linda,
esguia e fogosa ainda,
assanhada qual almeia,
e Margarida
horrorosa, rota e vazia
que mais nada
da vida anseia,
que já não lhe resta
nem uma miséria de gota,
e há ainda
a Margarida que se alheia
e que se põe a vadiar
cheia a olhos vistos,
mas,
não se presta a chorar,
por isto,
ri como se fosse pilhéria,
é um misto
de noviças viçosas e cruas,
inda ontem donzelas,
que contrastam
com as antigas e idosas
que se arrastam,
Margaridas em negras ruas,
e negras, e mestiças, e brancas,
e amarelas Margaridas,
Margaridas frágeis, fáceis, dóceis,
mas,
são elas
fictícias Margaridas,
pois Franciscas e Aparícias,
e são ariscas
e não são francas,
com truques e manhas,
simulam, dissimulam e fingem
que não há outra saída,
que os fregueses,
muitas vezes,
as cercam
e a muque lhes impingem
suas taras e suas sanhas,
umas são caras,
outras já não são não,
mas,
todas são flores,
flores que mercam amores!

segunda-feira, março 06, 2006

Tenho Vila no sangue!

Tenho Vila no sangue!,
sou sangue
do seu sangue,
pela Vila
dou meu pranto, meu suor,
meu melhor,
meu maior sorriso,
e do meu sangue,
quanto for preciso,
é por isso,
meu amigo,
e não se zangue
quando eu digo,
ouvindo Noel,
e Noel
é pra ser sempre ouvido:
“não vacila
quem nasce lá na Vila”;
mas,
se vacilar,
pode acreditar,
só pode ter sido
bobeira de parteira,
que tal artista
não devia
ter nascido por lá;
nascer na Vila,
é ser parte do feitiço,
é ser embalado
no berço do samba,
é ser ninado
em colo de bamba
e com solo
de sambista de primeira,
ser da Vila
é Vila ser e ser assim,
é a magia
de ter Vila no sangue,
nesse sangue
que todo dia
desfila em mim!,
sou Vila e sou da Vila!

sexta-feira, março 03, 2006

Desabafo

De antemão,
por fazer desabafo
a essa altura do campeonato
e por baixar o sarrafo,
por descer o malho
sem tato nem compaixão
no paspalho nacional,
figura com um ar tão tropical,
peço perdão a mestre,
grão-mestre, contramestre,
a quem é mestre
em ser do contra,
a quem sempre tem
solução de mestre à mão
e a quem no papo é mestre
ou é mestre
em encher o papo
de grão em grão,
mas,
não é mole não!,
por mais
que me adestre e amole,
por mais que me abale
e rale pra fazer a cama,
por mais que tente
me dar bem na parada,
por mais que imite
um bom exemplo,
por mais que freqüente
toda a sorte de templo
e fale com crente
de toda sorte de seita,
não acho quem me fale
como é feita a reza
que permite a entrada na dança,
mas,
uma carrada
de gente lesa e lerda
que não vale
nem o que pesa
ganha fama
e mama uma lã de monta
mostrando ao fã
merda e lambança
e apresentando a conta!

quarta-feira, março 01, 2006

Qualquer semelhança é pura coincidência...

Antanho seria estranho
e causaria confusão,
mas,
no carnaval
da atual conjuntura,
é comportamento
corriqueiro e normal,
então,
tomou um banho,
parte de assento,
parte banho-de-cheiro,
reduziu com cinta a cintura
de quarenta e cinco
pra quarenta,
pintou no traseiro uma pinta
com tinta vermelha,
talvez magenta,
na orelha pôs brinco,
fez rabo-de-cavalo
e não se fez de rogado,
porque guerra é guerra,
pegou o embalo de um cabo
que ia pro plantão
e desceu a serra
no maior rebolado,
ambas as mãos nas cadeiras,
e cantando um baião,
embora fosse hora de samba:
‘Olê, mulher rendeira,
olê, mulher rendá...’,
e foi namorar
sem se importar
se era patrão ou patroa,
se era a primeira pessoa
do plural ou do singular,
e fez logo sinal
pra um transeunte
que passava pelo local,
mas,
não me pergunte
o que foi que aconteceu
pois anoiteceu de repente
e eu estava sem lanterna,
e a gente não tem boa visão
lá da taberna
porque a pinga é estrábica,
monossilábica também,
e pega fogo
a fábrica de ginga
de uma gringa
que não tem
jogo de cintura,
mas fatura
com o do alheio
e deixa o ambiente
cheio de poluição,
e nem o mais calmo
e menos beberrão
vê um palmo na frente do nariz,
e quem por ali palpita
emite palpite infeliz
e causa a maior grita,
contudo,
no dia seguinte,
como bom ouvinte
do jornal matinal
que em voz alta
pra toda a vizinhança
lê minha vizinha,
que nos falta
até pra leitura,
soube que ao Anacleto coube,
num bloco lá de Copa,
o “Baralho Que em Copas Não se Fecha”,
um rei muito prosa
com suas mechas rosas
e que tudo topa,
e que a criatura
foi direto pra o bloco
de países da Europa,
foi fazer a tal mudança,
remover as varizes
e fazer sua independência
quebrando um galho aqui,
outro ali,
e, no intervalo,
tocando chocalho
e tomando caipirinha pelo gargalo,
mas,
cabe a lembrança,
qualquer semelhança é pura coincidência...

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

São os ventos

Me tenta ventania,
cascalhada, pé-de-vento,
me atenta e enfrento,
e a danada vira tufão,
de jeito me pega,
arrebenta o leme,
e treme e teme o timão,
e a danada me carrega,
sem rumo nem prumo,
a vela vai ao limite,
cansaço, exaustão,
então,
quando a vela
já não mais agüenta,
recalmão se apresenta
e dá esperança de bonança,
e aceito o convite
pensando em aragem,
bafagem, viração,
e caio em seu braços,
todavia,
vem calma, calmaria
nenhum vento
e sem vento não há salvação,
não é solução
essa vela inerte e fria
que me subverte,
verte falta de emoção,
e a falta não agüento,
e com o coração
agitação a alma ensaia,
é cochicho daqui e dali,
e o cochicho não falha,
se espalha o bicho
pelo corpo inteiro
que a razão
não está de atalaia,
e saio por aí
a buscar carpinteiro, pampeiro,
carpinteiro-da-praia,
mas,
sou assim,
useiro e vezeiro
em pegar mó de vento,
em me aventurar pela fantasia,
me visto de faraó
e insisto em buscar
o alento do cansim
pra desfraldar minha vela,
como já fui até lá,
levado pelo o afefé,
por sua magia,
mãe Iansã,
tento velejar
em harmatã, simum,
os áfricos,
tento um a um,
entretanto,
vem saudade num áfrico
e venta na vela,
e saudade
me faz dar guinada,
trocar catamarã por jangada
e vou atrás de aracati,
marajó, mossoró,
mas,
o vento se reinventa,
inventa repiquete
e repiquete salta e ronda,
e uma onda me assalta,
inverte a direção,
a cada momento
mais desorientação,
mais se desorienta a vela,
mais me desoriento,
fico sem saber
o que fazer
pra ir adiante,
são os ventos
que põem defronte de mim
só o horizonte,
aberto, deserto, sem fim,
igualmente distante
por mais que tente
chegar mais perto,
horizonte...
sempre igualmente distante!

Canto e não paro de cantar

Canto
e não paro de cantar
porque sou canção ao vento,
cem por cento peito aberto,
canto
e não paro de cantar
porque sou canção ao vento,
cem por cento peito aberto;
canto
porque estou sujeito
ao amor que coloco
em cada passo,
sou feito
de compasso e harmonia,
sou a alegria de acordar
a cada acorde que faço,
sou a magia
de ser tocado
a cada nota que toco;
canto
porque sou todo música,
mestra música,
música de orquestra,
banda e bateria,
de bloco que anda
e arrasta multidão,
de solista que inebria
e de artista da folia,
folião
que repete
e repete
e repete
e quase desgasta o refrão;
canto
e não paro de cantar
porque sou canção ao vento,
cem por cento peito aberto,
canto
e não paro de cantar
porque sou canção ao vento,
cem por cento peito aberto.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Madeira de dar em doido

Sei bem
que é nó na madeira,
e em madeira de lei,
e madeira
de dar em doido
que doido é também,
doido de pedra,
doido
de jogar pedra em santo,
doido de causar espanto
em doido varrido
que varre a doideira
como se varre
pro canto a sujeira,
é doido curtido,
tão ou mais doido
que qualquer doido
com carteira e certidão,
é doido metido
e com tradição
que a doideira
é bem de família
e já tem até filha
que brilha na malucação,
e tem fama
de ser doido de cama e mesa,
doido beleza
que vê tudo azul
quando ouve o Raul,
ele é doido, doido,
doidão por inteiro,
mas,
não rasga dinheiro não!

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

"Tropicalice"

Pra onde vai me levar
essa tropicalice
que me faz
pensar com os poros,
aí me arvoro
em senhor da verdade
e me assenhoro
sem rubor de qualquer tolice;
pra onde vai me levar
essa tropicalice
que me faz
nadar contra os ponteiros,
ser pioneiro ao contrário
e, quando escolho,
dizer que tem prioridade
porque se disse ser prioritário;
pra onde vai me levar
essa tropicalice
que me faz
votar pra presidente
de olho, em essência, no vice,
ou vice-versa,
me faz ir em conversa
que só na aparência é diferente;
pra onde vai me levar
essa cadeia de tropicalice
que me faz ter dó
tão-só da tropicalice alheia!

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Nem maciço nem de pau oco

Nem maciço nem de pau oco,
afinal,
não sou santo,
mas o meu me protege
ou minha santa,
mas,
também não sou herege,
isso eu garanto,
por outro lado,
não sou normal
nem cem por cento louco,
às vezes,
a folia é tanta,
é tanto o frege,
que me entedia e vira tormento,
cansado,
peço arrego,
chega!,
a alma elege a calma
lá do meu regaço,
braços e chamego da nega,
mas,
em outros momentos,
por mais que procure
e até faça o que posso
pra nem pensar,
o bicho pega
e não agüento de saudade da rua,
nessa hora,
o regaço vira clausura e me amargura,
meu pedaço me acua e asfixia,
e coço, comicho,
que me arrepia e devora
a vontade de cair na farra,
a essa altura,
já não há amarra que me segure
e corro atrás de liberdade,
de menina, torresmo e gasolina,
mesmo ciente
que ainda morro de porre e boemia,
mas,
que diferença faz
se toda a gente
morre mesmo um dia?!

Quero bis

Quero bis,
no quadro o giz,
e sem esquadro,
e sem compasso,
a descobrir a flor,
a sentir
passo a passo
como é doce seu sabor,
quero bis,
ser feliz
como a primeira flor
fez se sentir o aprendiz,
quero ouvir
a mensagem da flor
como se fosse
virgem meu ouvir,
quero sentir vertigem
à maneira de marinheiro
de primeira viagem,
quero sensação de estréia,
emoção e suor
de quem
não tem a menor idéia
de como o ato há de ser,
o ato primeiro,
quero bis...
quero bis
do primeiro e inteiro prazer!

Revelação

Vou bater foto
desse incrível amor
que boto pelo olhar,
mas,
invisível pra ela,
vou fotagrafar o ardor,
a emoção que sinto
e que se revela
na escuridão do recinto,
esse meu peito
que anda feito
câmara escura,
só a luz vermelha e branda,
quase envergonhada,
que se assemelha
a de antecâmara
de lupanar do interior,
vou me revelar
sem censura
até tornar visível
a paixão transparente,
até acabar
com a latente sensação
de que não passo
de emulsão impressionada,
vou revelar
cada traço
desse bem querer
que me faz ficar vivo,
que não quero mais
ser esse negativo
onde você
não é capaz de me ver!

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Não tem nada a ver com o vinho

A gente pisa, repisa
e reprisa a pisada,
mas,
não tem nada
a ver com o vinho
o suco carmim
que a dorna entorna,
e a gente
inspira e expira
um cheiro chinfrim
que não torna
o ambiente fragrante,
que não é de pinho
nem de sândalo,
é do muco fedido,
suor de quem
não tem desodorante,
quando a gente
tem roupa,
não é abundante
nem nos adorna,
pois não é linho
ou outro tecido maneiro,
é do que há de pior,
e a gente não poupa
que, além de escândalo,
o dinheiro é humilhação,
seja aposentadoria,
jorna ou pensão,
agora,
quando a gente
chega em casa,
é a hora
que mais nos arrasa,
é a ducha mais fria,
embora não haja água,
quanto mais
água quente ou morna,
e a gente murcha,
e de barriga vazia
no chão a gente encorna!

Santo de bar

Santo de bar,
ninguém sabe
qual é o seu altar
nem em que religião
seu culto cabe,
ou,
se na verdade,
é só mais um vulto ufano,
machão e paradoxal,
mais um Fulano
que não abaixa o facho,
por cima,
uma identidade,
outra por baixo do pano,
como é tão comum
nesse nó nacional
em clima de verão tropical
com Carnaval
e festival de bumbum,
santo de bar,
ninguém sabe
se faz algum milagre,
se é um mago
que se abre
com o afago do devoto
e ensina o truque
pra acertar
as centenas da quina,
todas as seis,
e pra ganhar no bicho
com duque de dezena,
uma da hiena,
uma do bagre
e uma da pedrês,
mas,
noto que santo de bar
leva um trago
de cada dose de xinabre
que bebe o devoto,
um lauto, outro mixo,
mas leva,
e nunca vi santo de bar
ficar alto e fazer tititi,
santo de bar
é mesmo bacana,
nem tem time pessoal,
torce pelo do beberrão,
não reprime
nenhum dos três sexos,
não fica perplexo
com cada tom das epidermes
nem com o local da devoção,
serve qualquer um por aí...
tanto faz Marechal Hermes,
Copacabana, Baixada ou Leblon,
mas,
nunca ouvi
alguém chamar
santo de bar pelo nome,
mesmo que o devoto
tome bem mais de uma,
e ninguém tem sua imagem,
em suma,
posso afirmar
de maneira enfática,
santo de bar
não é miragerm
nem besteira não,
e, se ele não se chatear
com a força de expressão,
posso assegurar
que sua glândula hepática
é uma glândula
que não é mole,
pois agüenta um gole
de doses e mais doses
de água-benta
e nem com cirrose esquenta!

sábado, fevereiro 18, 2006

Azua

Azua,
saia de cambraia,
tomara-que-caia,
raras alfaias
que não valem
nem um vintém
e sem aias de atalaia,
Azua,
ginga a esmo,
se blefaia pinga,
mesmo parca,
algum bem parco,
embarca no barco
de marambaia
de marca maior
e cai na gandaia,
se desnuda
e banca a cobaia
na teia
do que há de pior
na arraia-miúda,
quando se aquece,
quando se abraseia
a poder de cumulaia,
de pinga da pior espécie,
se empolga,
finge ser prosa
porque biraia formosa
inda é,
ou, então,
folga, bate o pé,
vaia, briga, xinga,
faz intriga à laia de catraia,
de biscaia
que não tem
a menor classe,
mas,
e parece até
passe de mágica,
muda de súbito
e põe à mostra
sua veia autofágica,
mostra quanto é infeliz,
e se prostra
chorosa e trágica,
maldiz o concúbito,
se penitencia e pede perdão,
Azua,
cria da zona,
dona e serva da rua,
vadia de pai e mãe
sem lar nem guarida,
se ninguém mais vai,
vou eu implorar
a proteção de Oçãe,
e erva capaz
de tirar você dessa vida!

Eu acredito em tudo

Minha crença é imensa,
eu acredito em tudo,
por mais esquisito
que pareça,
acredito
em sombração, fantasma,
bicho-papão, boitatá,
Papai Noel e abracadabra,
acredito
em chapéu
pra ocultar fuá
de cabeça de alfinete,
em colete salva-vidas
feito sob medida
pra tronco de jequitibá,
em licença médica
pra criado-mudo
se livrar do ronco
e das crises de asma,
em bota ortopédica
que cura de imediato
pé-chato de pé-de-cabra
bem como de pé-de-vento,
em tratamento
de varizes de perna de mesa
com meia elástica,
acredito
moderna tipóia
pra braço quebrado de sofá,
em cirurgia plástica
que em cara-de-pau
um jeito dá,
em anel de grau
pra anular de mão-inglesa,
em colírio
que é uma beleza
pra olho de furacão,
acredito piamente
que tem paranóia
essa gente que fala
em trapaça e tramóia,
gato, rato e cabala,
e vou ao delírio
com promissão de candidato
à cata de cédula
em véspera de eleição!,
por essa razão,
tenho pena
dessa gentinha incrédula
que apequena
minha imensa crença!

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

"Tibambã bambandá"

Tibã tibambô,
tibambã bambandá,
tidâ tidandô,
tidandã dandambá,
saravá,
mãe Iansã, pai Xangô,
saravá,
quem vem,
saravá,
quem inda não veio
mas um dia virá,
tibã tibambô,
tibambã bambandá,
tidã tidandô,
tidandã dandambá,
saravá,
mãe Iansã, pai Xangô,
saravá,
quem vem,
saravá,
quem inda não veio
mas um dia virá,
saravá,
Dadá,
irmã de Luanda,
e de Ruanda
dinda Didá,
curingas do lundu e da ciranda,
saravá,
Dudá,
da Banda de Du
a mais linda,
e ainda nos brinda
com sua ginga,
saravá,
Dedé,
bubu e abadá
de holanda tranchã,
saravá,
Dandi,
beni folgazã
que manda no pé,
saravá,
umbundu de fé,
Dandã,
guirlanda e regô
como não há iguais,
saravá,
pais de aluanda,
meus Orixás,
mãe Iansã, pai Xangô!

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Até virar bola da vez

Sem parente e sem escola,
se mete esse pivete
em cada enrascada...
inventa cada moda...
roda com o movimento
até virar bola da vez,
cavuca daqui e dali,
descola mutuca e brizola,
arremete contra o vento,
decola e voa contra corrente,
vai em frente
pra atender um freguês,
esse pivete
vira ventania,
venta fogo pelas ventas
e arrepia a vizinhança
quando avança
e enfrenta o jogo
com os talentos que tem,
e nem tem tantos,
quando dança,
esse pivete
muda de figura,
mente por completo,
faz cena a mil
e é quase perfeito,
descerra um santo,
encena um pranto
e berra que nada fez,
e jura e promete
tanto quanto
consente o desafeto
que se encerra
em seu peito juvenil...
sem parente e sem escola,
sabe o pivete
que só há um jeito,
esperar
até virar bola da vez!

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Logo eu...

Tomara,
apesar de ser
maior a chance
de ganhar na loteria,
tomara
que floresça o romance,
que você mereça
a cabeça que perdi
quando a vi
amadrinhando a bateria
da Bem-Te-Vi do Cafundó de Tribobó,
veja só como é irônico!,
logo eu...
orgulho de gêmeos
com calçada de sobra,
fêmeos subsídios à vontade,
lenda da malandragem
por toda a cidade,
cobra criada do barulho
e sem ofídios análogos,
agenda mais espessa
que catálogos,
e pode incluir o telefônico,
logo eu...
que nunca perdi a viagem,
nem em pelada,
nem em amistoso,
logo eu...
mais famoso na parada
que galã de telenovela,
logo eu...
que nunca precisei
ir ao itororó
no afã
de achar bela morena,
veja só...
logo eu
fui me enrabichar
por uma pequena
que é pequena
até de salto alto,
do lar não tem nada,
nem mesmo uma prenda,
é mais avançada
que cabeça-de-ponte,
dá asa a qualquer fã
e tem um monte,
e só de manhã volta pra casa,
logo eu...

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Baranga exclusiva

Volte,
minha Zunga,
Zunguinha da minha vida,
solte a franga,
tire a kanga,
se unte e bezunte
de creme de pitanga,
se encha de miçanga,
preencha com morango
esse umbigo e venha comigo
que estou nadando em mango
e, de saída,
vou pagar rango e ranga,
volte,
minha Zunga,
gueixa abençoada
pelo mananga da charanga,
quando você
fandanga e me espreme
com essa sua trunfa,
e geme e furunga,
e me funga e cafunga,
esqueço zanga
e nem ligo
se você me tunga,
me deixa de tanga,
sem sunga,
sem caranga
e leva toda a bufunfa,
volte minha Zunga,
minha Zunguinha,
e não precisa mudar nada,
tanto faz
se você é dada demais,
é capaz de ser
danada de efusiva
com a rapaziada,
eu não me importo!,
só não suporto mais
essa baranga de dar dó,
aliás,
baranga exclusiva!

sábado, fevereiro 11, 2006

Domingo maravilha!

Domingo maravilha,
maravilha de domingo!,
caio na preguiça
espreguiçada com cerveja,
e tem peleja na tevê,
arroz com ervilha,
lentilha com costela,
paio e lingüiça,
depois,
pavê de maçã
e pudim de baunilha,
por fim,
licor, café,
cigarrilha cubana
e o sabor da bela Dedé!,
filha da anfitriã,
que se abana e fervilha
indo e vindo,
pra lá e pra cá
sacudindo o balaio
e com os faróis de milha
tesos e acesos
naquela malha
que marca a virilha,
é isso aí,
coração!,
se espalha, chacoalha,
se enxarca de emoção!,
que não é todo dia não!,
é só no domingo,
domingo maravilha,
maravilha de domingo!

Que time é teu?!

Encontrei o Romeu
que logo perguntou:
“sabe quem sou seu?!”
e emendou:
“que time é teu?!”,
quase respondi:
“Andaraí...”,
mas ele não deixou:
“viu por aí o Biliu?!”,
“jacaré no seu...?!”,
“brinca com meu brinco?!”,
poxa,
até aí,
só dera o Romeu!,
mas,
me salvei
porque era segunda
e lembrei do Sunda
pra formar a trinca
com ele e Biliu,
mas,
era necessário
chegar aos cinco
pra ficar por cima
e não passar por trouxa,
e perguntei
pelo Mário e pelo Loxa,
é... meu amigo,
com antigo camarada,
pra não passar por mané,
é preciso fazer rima safada!

Jogador-quintessência

Caramba!,
dá uma gingada,
camba e descamba,
encena dar um pique de araque,
finge querer chegar ao ataque,
e sempre está
com a antena ligada,
que espera
que no horário certo
alguém lhe indique o empresário
escoltado pelo cartola de fraque
ao lado do destaque
da escola de samba,
e é preciso
ser esperto e arisco,
ter paciência
pra não ficar correndo
e correndo o risco
de levar tranco e baque,
tendo que brecar
e acabar pregado
no banco de reservas
e sem a renda da venda do passe,
e poupa suor parado,
observa melhor
o quique da esfera
e o desenlace do lance,
quiçá sua grande chance,
aí,
ameaça marcar mas não marca
que, de tão parca,
a vontade não pospera,
na verdade,
é bem marcado
e ameaça se desmarcar
mas não se desmarca,
mas recebe mesmo assim,
e cara a cara com o goleiro,
que o beque deu um cochilo,
por fim,
com muito estilo,
passa o pé pelo lado,
por baixo e por cima,
finge que vai mas não vai,
balança pra lá e pra cá
pra elevar a auto-estima,
dá pedalada
pra agitar a adrenalina
e está descerrada a cortina,
e penteia, saracuteia e rebola
como se tivesse bicho-carpinteiro
que isso faz bem à alma,
e, com calma,
esquece a bola e sai pela linha de fundo,
o mundo fica pasmo,
mas jornal e tevê
fazem a claque ver
que deve ir ao orgasmo
com o valor
dessa fenomenal jogada
desse jogador-quintessência
que garantiu as comissões,
os milhões da transferência,
e vai mais um craque pro exterior!

Não se chama Dom Pixote!

Mona Lisa, Mona Lisa,
agora entendi
esse sorriso de lince
que Da Vinci
sorriu em ti anos atrás,
te fez rechonchuda a sorrir
como irias sorrir aqui
onde muda, muda, muda,
mas acaba acabando em pizza;
e não dá pra parar por aí,
que esses italianos são demais,
com muita arte,
Bolognini,
Pasolini, Visentini e Mastroianni
fizeram um time
que levou à tela
novela de Brancati,
“O Belo Antônio”,
fraco, verde, amarelo,
useiro e vezeiro em dar pane,
incapaz de penetrar até
no buraco do ozônio,
e um estrangeiro,
que fez aqui grandes filmes,
de gozação,
me ofereceu uma Quilmes,
não é mole não!;
mas um espanhol
não me deixou botar um punto,
digo,
uma pedra no assunto,
Miguel de Cervantes Saavedra,
talento gigante,
criou Dom Quixote, Sancho Pança,
moinhos de vento,
e, sob nosso céu,
temos lá nossos moinhos:
Carnaval e futebol,
e a crise a gente mói,
quando não mói,
a crise a gente amansa
com bingo e domingo de sol,
outros moinhos do nosso elenco;
agora,
é bom que se frise,
nosso herói
na hora do rancho dança
e não se chama Dom Pixote!,
é só Pixote, o do Babenco!

Me acuda com alguma idéia

Por favor,
me acuda com alguma idéia,
preciso da sua ajuda
pra encontrar a panacéia
e me livrar desse rolo,
ela era azaléia,
bela e formosa a danada,
era avenca, delicada,
era rosa,
perfume
que me assanhava as entranhas,
e havia amor em penca,
amor-agarradinho,
e eu vivia louco de ciúme,
aí,
bem tolo e bem pouco sensato,
caí como um patinho,
paguei o pato
e colhi a flor
de papel passado e com padrinho,
e festejado com bolo e champanha,
depois,
lua-de-mel,
mas veio o mel na mala,
e veio feito bala, bombom, chocolate,
aí,
entrou aveia no copo de leite,
e bate um aqui,
bate outro ali,
bate mais um acolá,
junta cerveja com tira-gosto
nadando no azeite,
mete no bucho sempre disposto
feijoada e vatapá,
unta pão com manteiga e geléia,
e empuxo daqui, empuxo de lá,
e minha flor meiga e miúda
virou vitória-régia
capaz de causar inveja
à rainha-do-lago mais parruda,
um metro e cinqüenta
de altura, espessura e largura,
só vendo,
quando, toda faceira,
ela senta na banheira
e a água espuma e sai pelo ladrão,
eu levava a pluma nos braços,
agora,
só me desembaraço da função
usando um burro-sem-rabo,
tá complicado,
nosso quarto,
que já viu cenas de amor,
agora vive um drama
e nossa cama
seria arena de sumô
se eu também fosse farto,
a situação tá assim,
e rogo por uma solução,
que se essa encrenca
não acabar logo,
ela ainda despenca
e dá cabo de mim!

Pra quê?!

Pra que esse muro
com jeito de dique,
gradil na janela,
tramela e porta de ferro,
se a casa é de sopapo
e pau-a-pique
feito com pau-brasil,
e a casa não suporta
catiripapo, berro, dedo-duro
nem furo,
e furo de pasquim?!,
e pra que
essa casa assim,
cimento cem por cento,
gradil e porta de ferro,
se quem tem
direito a berro e grana
pra jogar o jogo
fica do lado fora?!,
agora,
se dana quem não tem,
por bagana
é tratado a ferro e fogo
e acaba entrando em cana!

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Não são apenas

Não são apenas
duras penas
que as trenas não medem,
não são loucuras terrenas
apenas
que nas arenas fedem,
não são impuras lenas
e hienas que procedem
apenas,
não são apenas
figuras obscenas
locando pequenas putas,
não são serenas criaturas
apenas
encenando cenas brutas,
não são amenas pinturas,
cantilenas lembrando lutas
apenas,
não, não e não!,
não é isso apenas...
são neuróticas madalenas,
exóticas garças-morenas
caóticas açucenas
que sobrevivem a duras penas,
não, não e não!,
não é isso apenas...
são Milenas,
algumas poucas,
que são mais Milenas
que a multidão
de Milenas loucas!

Juro que lhe diria tudo...

Juro que lhe diria tudo...
diria tudo
que soubesse de mim,
juro sim,
diria se soubesse,
mas não sei nada...
cada vez que assunto
e me pergunto
quem sou,
dou uma resposta
e bem diferente,
quando acho
que sei do ente
que há em mim,
que o suficiente
pra uma aposta
de mim sei,
nem passo rente,
quando reflito e acredito,
creio que tenho crença,
que sou um crente,
imediatamente
me vejo bem no meio
de uma descrença danada,
juro que lhe diria,
juro sim!,
mas,
pra lhe dizer,
seria preciso saber,
e ainda não sei nada de mim!

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Quebre lanças

Quebre lanças
pra botar fora esse lixo,
pra impedir o avanço
desse bicho
que devora você
e não se cansa
de não lhe dar descanso,
use seu estofo
pra se livrar desse ranço
que faz você se sentir
mixo e amargo,
que faz sua vida sem graça
se encher de traça e cupim
e emitir esse odor ruim
de bolor e mofo,
passe a passar ao largo
dessa mágoa doída,
dessa passada decepção,
deixe que se torne água
que já não move moinho,
quem sabe,
assim,
outra paixão
lhe atravessa o caminho?!

Não meta a mão em cumbuca

Meu amigo,
é verdade sim
que diz um antigo ditado:
“quem não arrisca não petisca”,
o refrém só não diz
que aí também mora o perigo!,
assim,
não meta a mão em cumbuca,
arapuca ou alçapão,
e podem ser isca
tutu, amizade e mulher,
portanto,
não seja afoito não
e tenha tanto cuidado
quanto puder
com armadilha em geral,
seja de fora ou de dentro,
destra ou sinistra,
até mesmo do centro,
afinal,
pode ser tudo teatro,
além do mais,
o quarenta e quatro
pode não ser o ideal
entre o oito e o oitenta,
eu escolho a olho
as quarenta ou quarenta e dois!;
depois,
não há nenhum mal
em usar arreio,
cilha, freio ou bridão,
se com eles
adestra as feras,
administra as quimeras,
e não esqueça
balança e medição,
que precisam ter
igual vulto
adulto e criança,
cabeça e coração!

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Vamos rodar

Vamos rodar
no rodar dessa roda
que roda e não pára
que não dá
pra parar a roda,
vamos rodar
no rodar dessa roda
que roda e não pára
que não dá
pra parar a roda,

vamos rodar roda afora
como roda o ponteiro
com o rodar da hora,
vamos rodar
como no mamoeiro
o mamão roda
na roda da estação,
como roda a criança
com o rodar do pião,
da piorra,
como o cata-vento roda
à cata de mais vento,
de mais roda,
vamos rodar
à moda da baiana
que se engalana
na roda de dança
com a saia cheia de roda,
vamos rodar
mais uma rodada,
rodada e meia,
mas sem pachorra,
sem tentar
um rodar mais lento,
sem o afã
de rodar mais que a roda,
que não roda a noite,
não roda a manhã,
nada,
niguém roda nesse mundo
nem um segundo antes,

nem um instante depois,
que não roda a noite,
não roda a manhã,
nada,
niguém roda nesse mundo
nem um segundo antes,
nem um instante depois!

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Poxa!

Poxa!,
que mania:
deixar pra última hora
e fazer nas coxas,
em cima da perna;
e que filosofia!:
que se dane o mundo,
que se dane o avião,
que não sou piloto
nem me chamo Raimundo;
agora,
que senhora fotografia
do maroto-padrão nacional!,
um bamba no clima
da eterna emoção tropical,
futebol, samba, verão
e uma geladinha!,
que sem geladinha
não vai não;
como também
não é calça-frouxa
e tem as coisas roxas,
além de maroto,
é machão;
só não sei
se algum santo
vai fazer a tempo e a hora
o que já devia ter feito
e até agora não fez o maroto!,
só não sei
se algum santo
vai conseguir dar um jeito
nessa nossa pane atual
e tirar da enrascada o maroto!,
e acho
que a tal coloração
que ele diz ser de macho
é só efeito
de porrada ou de apertão!

Isso é que é peito!

Preste atenção no que digo,
não teste essa mulher,
você não tem noção
do perigo que ela é,
ela é da pá virada,
do agito e do pagode,
essa mulher
esquenta o peito
com uca e absinto
e não funde a cuca
nem sequer fica de bode,
enfrenta muvuca
no peito e no grito,
mata no peito confusão,
leva a peito arranca-rabo
e dá cabo de brigão,
perto dessa danada
comigo-ninguém-pode
é pinto,
essa danada
já tem muitos feitos,
já pegou na cama de jeito
muito machão,
passou o dito nos peitos
e acabou
com a fama do bambambã,
digo e não me acanho,
meu amigo,
não me assanho
com essa danada,
essa danada é da pá virada,
e o que não lhe falta é peito
pra encarar na marra
qualquer barra
e qualquer malta,
nem pra peitar sutiã
de qualquer tamanho!

Pra reduzir o risco

Pra reduzir o risco
de fazer besteira
e acabar errando o bote,
seja arisco,
não adote
a pressa como bandeira
e não entre nessa
de ir com muita sede ao pote,
quer dizer,
se puder caminhar,
não trote,
se puder trotar,
não galope,
se puder galopar,
voar não tope
que você não tem asa!;
aliás,
pra reduzir ainda mais
o risco de calote
em casa ou no negócio,
bisbilhote o quanto puder,
se abarrote de informação
e cada opção esgote,
saiba de antemão
qual é o mote do seu sócio
e preste atenção,
note e anote
o que arrota sua mulher,
caso arrote camarão
e você não tiver tutu
nem pra sardinha,
dê o fora na hora!;
e só mais uma coisinha,
se não tiver certeza absoluta
de que tem absoluta certeza,
não vote!

O veneno

O veneno circula
como um porre,
percorre o peito,
se acumula na mente
e escorre
feito risada tosca
ou fosca lágrima,
pura artimanha
da torrente de magma
fumegante e abrasador
que vem de entranhas
tão cheias de rancor,
pura artimanha
do magma itinerante
que corre por veias
sangrentas e indiferentes,
afluentes que não têm pejo
de deixar circular
o desejo de vingança,
mas,
à proporção
que o furor avança
o veneno se vai envenenando,
um dia,
quando a risada fosca
e a tosca lágrima,
quando o magma
resfria e se solidifica,
se petrifica o coração,
e não medra amor
em coração de pedra!

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Porta improvisada

Pela porta improvisada,
diante de um sol ainda frágil
sob o último vestígio da madrugada,
saímos da paixão,
deixando um beijo
perdido na esquina,
e saímos
sem aviso,
sem pranto,
sem palvras,
e falar era preciso,
só uma canção desafinada
com nossas sombras fazia par,
tudo era esparso,
tudo era indefinido,
tudo era gesto
de uma dança de despedida,
sem saber a razão,
me sentia aflito,
me afligia aquele instante
entre o silêncio da praça vazia
e a poesia incessante do mar,
não sabia
que estava aflito
que a aflição já sabia
que aquele afligir ia ser infinito!

Tá indo pro estaleiro

Se estiver no camburão
e não for policial,
se estiver na ambulância
e doutor ou enfermeiro
não for não,
companheiro,
não vou estranhar
se seu pessoal
estiver em pânico
em tal circunstância,
pois,
seria temerário
imaginar passeio
num raro
horário de recreio...
é claro
que você
pode ser mecânico
e estar testando o veículo,
mas,
sem prova em contrário,
e prova cabal,
tá indo pro estaleiro,
no cubículo ou no hospital!

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Agradeça de fato

Esqueça a retórica
da meteórica gratidão,
aquela oca e tão pouca
que se esvai
após cruzar o céu da boca,
quer ser grato?!,
agradeça de fato,
mereça quem lhe deu a mão,
se quiser dizer obrigado
e seguir com a antiga mania,
diga com arte e energia,
dê vazão
ao seu lado bizarro
e faça aquele espalhafato
que,
na maior parte,
é pura ejaculação precoce,
desafogo e pronto,
e ponto,
entre pigarros e tosses,
está cumprida a missão!,
mas se quiser ser grato,
agradeça de fato,
agradeça com o coração!

Que desassossego!

Que desassossego!,
quando creio
que vou
parar no emprego,
nego me dá um bico;
quando penso
em sossegar um tico
no chamego da nega,
chega a prole e perturba;
quando sou forçado
a botar de lado
o apego à vida
pra dar duro pelo pão
no meio da turba,
fico apavorado e tenso
porque não é mole
viver pedindo arrego,
fugindo de ladrão
e de bala perdida;
por fim,
quando sento na sala
e tento ter sossego
pra ler meu jornal,
é o jornal que não sossega,
o furo é chaga e sangra,
sangra de enxarcar os olhos...
e os olhos cega...
e tudo fica escuro,
na manchete,
o mal,
a praga
apaga a esperança,
se anuncia a peste
que nos espia
pela tela da tevê,
a epidemia que avança,
que investe pela internet,
e não vai resolver
fechar tranca, tramela,
janela e cortina,
que amargor, amargura, amaro dia,
que amaro dia, amargor, amargura,
a cada dia,
tudo custa mais caro,
tudo
ainda mais nos assusta;
que desassossego!,
parece que não há norte,
trincheira, forte, vacina
nem branca bandeira,
parece que nada espanca
esse desassossego!

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Viva o banquete!

Viva o frango assado
que pôs fogo na mesa,
apesar da tristeza
do marido frangueiro,
goleiro que foi traído no jogo;
viva o bolo de aniversário
com vela e enfeite,
apesar de ter sido
o que o namorado otário
havia acabado de levar dela;
viva o pepino
fatiado fino e com azeite
que veio com o rango,
apesar de ter rolado
rolo de pastel dentro da cozinha;
viva a batata quente,
pitéu temperado com coentro,
apesar de ter queimado
a mão daquela vizinha
que na gente só mete o cacete;
viva o croquete
tão apreciado quão picante
que engoliu a mocinha,
apesar de ter enjoado
todo dia desse dia em diante;
contudo
e apesar de tudo,
viva o banquete!

Tome um cuidado

Seja bruxo, alquimista,
insista e arrisque,
se ajeite
e aproveite o empuxo,
torça o real
e torça pela fantasia
de terça a terça
em horário integral,
se for necessário,
não se belisque
pra ficar acordado;
se tiver apostado,
pode ter sido até
no hóquei sobre o gelo,
sem garantia
e com o risco
de entrar numa fria,
tenha força até o final,
torça pelo seu palpite,
ponha fé na sua sorte,
mas,
seja forte,
faça esforço
e faça face
a apelo e atropelo,
evite
que alguém
passe do limite,
banque o disc-jóquei
e se abanque no seu dorso
à conta de tocar
seu disco invertebral
com tecnologia de ponta;
e sempre torça
pra não se arrepiar o pêlo
de quem você não queria
que ficasse arrepiado,
que arrepio trocado
dá calafrio;
torça e torça e torça
toque e retoque a vida,
mas,
tome um cuidado
com a magia,
não torça nenhum fato
nem se torça
pra praticar algum ato
se pela torcida
puder ser obrigado
a pagar o pato algum dia!

terça-feira, janeiro 31, 2006

Ah... que saudade!

Ah... que saudade
do disco na vitrola,
“Tu me acostumbraste...”,
ah... que saudade
do engaste na penumbra
disputada palmo a palmo
pelo esbarra-esbarra dos casais,
ah... que saudade
dos Metais em Brasa,
e que brasa, e que metais!,
ah... que saudade
do oba-oba em braile,
o baile da mão-boba
sob a gola farta do vestido
ou sob o xaile
que fingia ser de marta,
ah... que saudade
do sussurro ao ouvido,
apesar do risco
de levar murro de irmão
ou, então,
de passar vexame,
um instante antes
de botar a mão no bolso,
ser apanhado em flagrante
pelo detalhado exame da tia
que ficou pra titia e de prontidão,
ah... que saudade,
moço!

Já tá bom demais!

Se não escassear a mulata,
não baquear o samba,
não rarear a cerveja,
caramba!,
já tá bom demais!,
aí,
não faz diferença não
se minha equipe querida
bordeja de madrugada,
não peleja no treino,
dá a partida de bandeja
e então não ganha,
só apanha ou empata;
aí,
não faz diferença não
se a filha e a patroa,
quando saio do reino,
fazem uma dupla boa
e a esperta dupla
decupla a renda da família
exercitando certas pendas;
aí,
não faz diferença não
se de forma bizarra
e contra a norma
na marra se adiou a data
pra tomar a decisão
se se pune ou não a nata
atolada em muamba;
ou seja,
se não rarear a cerveja,
não baquear o samba,
não escassear a mulata,
caramba!,
já tá bom demais!

É... deu a louca no almanaque!

De fraque e cartola,
o Tarzã deita e rola
na porta de uma boate
e mora com uma dona
que tem uma irmã
que adora um cipó
e não se importa
que ele a chame de Jane;
sem a capa
e sem o mapa da mina,
o Mandraque teve pane
e acabou dando um nó
num jogo da segundona,
não arranjou o empate
e foi fazer faxina no xilindró
porque já levara a peita;
virou motobói o Jerônimo,
mas ainda não aceita
não ser mais herói
porque o sertão virou mar
como previa a canção
e ele não aprendeu a nadar,
e vive com crise de asma,
de ansiedade e de saudade;
por causa de um homógrafo...
melhor dizendo,
homônimo sem censura,
o Fantasma teve um baque,
noto que não há mais claque
pra lhe pedir autógrafo
nem fotógrafo
querendo tirar foto da figura;
é...
deu a louca no almanaque!

sábado, janeiro 28, 2006

Capitão-do-mato

Capitão-do-mato,
caçador de pegada e pista,
faro de cão, ouvido raro, vista aguçada,
capitão-do-mato,
bandido coração
indiferente à dor daquela gente,
chapéu na cabeça, garrucha na cinta,
sangue e rebenque na mão,
chapéu na cabeça, garrucha na cinta,
sangue e rebenque na mão
,
capitão-do-mato e o cupincha,
Cruel, um alazão
que empina, escoicinha e relincha
sem ver serpente pela frente
que sente o veneno que vem da sela;
capitão-do-mato,
caçador de pegada e pista,
faro de cão, ouvido raro, vista aguçada,
capitão-do-mato,
bandido coração
indiferente à dor daquela gente,
chapéu na cabeça, garrucha na cinta,
sangue e rebenque na mão,
chapéu na cabeça, garrucha na cinta,
sangue e rebenque na mão
,
capitão-do-mato e fila Feroz,
fiel e sanguinário,
que nunca late, focinha e abate,
abocanha ao sabor da sanha,
do veneno que o sicário algoz destila;
capitão-do-mato,
caçador de pegada e pista,
faro de cão, ouvido raro, vista aguçada,
capitão-do-mato,
bandido coração
indiferente à dor daquela gente,
chapéu na cabeça, garrucha na cinta,
sangue e rebenque na mão,
chapéu na cabeça, garrucha na cinta,

sangue e rebenque na mão!

Só pode ser praga de madrinha

Ouço atento
conselho e sugestão
de moço, adulto e ancião,
até o espelho consulto
prestando muita atenção,
e tento,
enfrento cada opção,
e o que posso faço
pra ver se vejo
solução ou manobra
pra botar o barco no mar
e meter o arco,
e me safar de vez
do abraço de cobra
e do beijo de dragão,
mas,
fico tenso e me arraso
quando penso acerca
da perca do apartamento
e do pagamento da pensão!,
e aí fico na minha!,
esse nó
só pode ser
praga de madrinha,
que obra do acaso
não é não!

Que mandinga você frez pra mim?!

Minha nossa!,
moça,
que joça de mossa
você fez em mim!,
me deixou assim...
sem bossa
e metido na foça!,
minha nossa!,
moça,
nossa palhoça,
sem seu encanto,
perdeu a graça,
e perdi raça
e razão pra fazer troça,
agora,
por todo canto
há poça de pranto,
e já me levanto moído
como se tivesse
recebido uma coça,
minha nossa!,
moça,
até quando me apanho
diante do meu santo,
me acanho
de um jeito esquisito
e fico aflito
como se estivesse
frente a um estranho
e me roça
um arrepio tamanho
que faço
oração às avessas,
com pressa e imprecação,
nesse meu dia-a-dia
à-toa e chinfrim,
não tenho apetite
nem topo convite
prum copo de boa pinga!,
moça,
minha nossa!,
que mandinga você fez pra mim?!

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Você está pensando que berimbau é gaita?!

Moço,
você está pensando
que berimbau é gaita?!,
se está...
está se enfiando
numa baita confusão!,
que berimbau
não é gaita não,
também do bolso
pode ser a gaita
e berimbau não pode não,
se quiser confirmação,
quando vier
a conta do almoço,
apresente o berimbau!
e veja a repercussão!,
ou seja,
a percussão da sua lata
na pata do gerente ou do garçom!

Meus Santos tomam conta de mim

Sou prolixo,
é muito confusa
minha argumentação
e me fixo
no que não é importante
quando dou explicação,
fico perplexo
diante de mera indagação
e o nexo já era,
minha conclusão
é simplória e difusa
e não é persuasiva o bastante,
não sou bom em evasiva,
escapatória ou escusa,
qualquer recusa
abala minha estrutura,
criatura estranha
me deixa sem fala
e mulher me acanha,
encabula e deixa tonto,
e tanto,
que faço firula idiota
e acabo entregando os pontos,
fico pálido
quando conto lorota,
esquálido quando minto
e rubro quando falo besteira,
fico disperso
e sinto tremedeira
em entrevista e discurso,
mas,
quando dou curso à inspiração
e descubro o artista,
meus Santos tomam conta de mim,
e aí fico assim,
solto!,
de todo envolto
no verso e na canção!

Dia morno

Dia morno,
dia sem estorno
na conta corrente,
nem crédito, nem débito,
dia de intuito
muito claro e conciso,
pista sem acidente
de ponta a ponta,
seja fortuito convexo
ou côncavo gratuito,
dia de plena visão
e sem reflexo
que perturbe a vista
pra não ser preciso
faro ou intuição,
um dia liso
em que não se tropeça em nada,
em que nada ocorre às avessas,
em que cada coisa está
no seu devido lugar,
mas,
não tão liso
que faça escorregar,
dia em que não se corre
porque não se está
premido pela pressa,
dia em que não se frena
porque não vale a pena,
não compensa ir devagar;
aliás,
um dia a mais,
mais um dia
que não faz diferença!

quarta-feira, janeiro 25, 2006

A quem interessar possa

A quem interessar possa:
se der,
prenda com barbante e durex,
se não der,
não seja otário,
seja astuto,
se renda ao “dura lex sed lex”
e se concentre na solução,
use e abuse de produto
com efeito
contrário ao do laxante,
ou seja,
que não tenha sido feito
pra dar jeito
em prisão de ventre,
e toque o bonde
por onde for preciso,
mas,
um aviso:
não coloque a carroça
na frente dos burros,
não chute o pau da barraca,
não lute contra a maré,
não enfie os pés pelas mãos
nem dê murro em ponta de faca,
e não tente dar coça
se só puder dar palmada,
até uma somente,
mas bem dada,
também,
não entre nessa
de cantar vitória antes,
é besteira,
e lembre a lição antiga:
a pressa é inimiga da perfeição!;
agora,
se não estiver aqui a solução
e não quiser
pendurar a chuteira,
está na hora do implante!

terça-feira, janeiro 24, 2006

Faça graça na raça

Por favor,
não espere permissão da razão
pra fazer graça,
coloque de banda o juízo,
ditador cheio de estratégias
que sabota a emoção
por inveja do poder do sorriso,
anda,
bota a mão na massa
e libere a nota engraçada
que o coração melodia
e faz tanto bem,
vem,
inspire euforia,
expire palhaçada,
deixe de lado a arena,
com cargo e agenda,
troque o colarinho apertado
por um bem largo,
se renda ao palhaço,
deixe que ele abra caminho
e entre em cena no picadeiro,
que o palhaço é o bombeiro
que apaga mágoas,
alaga o coração de alegria
e desvenda a beleza
que se escondia atrás da fumaça,
vamos lá,
abrande a expressão séria,
dê ensejo ao chiste,
despiste a tristeza
com um gracejo,
mande ver na pilhéria,
pra conseguir sorrir,
apele até pra chalaça,
mas,
por gentileza,
não entre nessa
de pedir permissão à razão,
faça graça na raça,
que tudo passa muito depressa!

Eu sou a que tem fome de ti

Eu sou a que tem fome de ti,
a que te come
quando beija tua boca,
mas,
não me tomes por louca
nem por fera,
eu sou a que te ama,
a que te espera de braços abertos,
a que está por perto quando chamas,
a que geme quando queres,
a que não teme ser várias mulheres
pra te dar bandidos prazeres
e saciar teus quereres invertidos,
eu sou a que tem fome de ti,
a que te come
quando beija tua boca,
mas,
não me tomes por louca
nem por fera,
eu sou a que se desespera
com tua ausência,
a que se magoa com teu desprezo,
a que tolera
a violência de teus piores vezos,
a que se escancara e se presta
às tuas taras,
aos teus intentos mais ferozes,
e não contesta
nem quando ecoas
teus mais atrozes xingamentos,
eu sou assim,
só quero que gozes,
mas que gozes em mim!

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Branco azulejo

Sendo muito franco,
nosso beijo
virou branco azulejo,
frio, sem graça e sem mistério,
nosso beijo
já não ameaça
nos arrancar do sério,
o bom senso
já não esgarça
nem descompassa o peito
com aquele calor intenso,
nosso beijo
perdeu o jeito,
não dá mais arrepio
e dos lábios já não passa,
nosso beijo
agora é beijo comum,
um beijo de senhora e senhor
sem sabor nenhum
e já não nos abrasa a boca,
não tem mais aquele ardor
que só se satisfaz
quando a alma fica louca,
não é mais um beijo voraz,
beijo que faz o coração
bater demais
no afã de dar mais um beijo,
aliás,
nosso beijo
nem mais tem
a malícia do beijo,
virou carícia calma de irmã e irmão!

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Fiz esse samba torto...

Fiz esse samba torto...
simples mortal
em pauta torta
não faz samba certo,
simples mortal
só faz certo samba...
samba desfeito
que vai ao sabor da pauta
quando o amargor
aporta no peito
e entorta a inspiração,
e samba que nasce torto,
assim como o pau,
direito não fica não
pois qualquer emenda
sai pior do que o soneto,
mas,
quando você me interpela
pra saber
por que me meto
a gemer um samba
que não se concerta,
do meu jeito aberto,
respondo assim:
depois que ela
me deixou a descoberto,
nada mais presta,
por isso pus à venda
o que resta de mim,
e aceito qualquer oferta!

"Leitoa assanhada"

Estava no menu:
“leitoa assanhada”,
e arrumei o maior rebu!,
em vez de ficar na minha
e de esperar o garçom,
pedi informação
ao grandão da mesa vizinha,
que furada!,
o sujeito se chamava Leitão!,
foi como ligar pro zôo
e pedir pra falar com seu Leão!,
inda bem que não me deu porrada;
mas,
não tenho jeito,
de quando em quando,
faço um vôo malfeito
e esbarro em confusão!;
um patrício chamado Idalício
trazia no colo seu filhinho
quando me pediu
pra consertar-lhe o autocarro,
eu disse que ia sangrar o burrinho,
e por pouco não sangro eu!;
parece louco,
mas tem mais,
eu não puxo mas sai
com intensidade e em falsete:
‘uai’, pra mineiro,
‘porra, meu’, pra paulista
e ‘barbaridade, tchê’, pra gaúcho,
nem precisava dizer
que vira e mexe entro no cacete!;
e não é só,
sou useiro e vezeiro
em fazer coisa bem pior;
eias a mais absurda da lista:
quando estou sonhando,
falo nome de mulher,
e Apolônia,
minha cara-metade,
além de não ser surda,
sofre de insônia!

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Não dá mais não!

Do jeito que tá,
não dá mais não!,
chega de não ter
pá, chã nem acém,
chega de viver de hipocrisia,
de ‘um dia... quem sabe!,
hoje ainda não cabe...’
‘amanhã?!,
talvez...’
chega de tanta alta,
de cem por cento de aumento
a torto e a direito
e de falta de previsão no orçamento
quando chega a minha vez,
basta de andar mais esquecido
que pasta em arquivo morto,
de pagar o pato pelo malfeito,
mesmo sem dar motivo,
de ficar passando pelo crivo
de ladrão e de milícia!,
chega de levar gato por lebre,
casebre por morada,
porrada por carícia,
do jeito que tá,
não dá mais não!,
chega dessa sua abobrinha!,
e quero as minhas
com a devida correção
e meu quinhão de farinha
pra fazer o meu pirão!

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Em cartaz na biosfera

Profissionais ordinários,
amadores mais baldios
que românticos,
pontas de fio a pavio
neurastênicos e afônicos,
tradicionais atores
dos espetáculos cênicos
em cartaz na biosfera
com irônicos cenários
e cânticos fuleiros,
obras e manobras
de matreiros senhores,
cobras que fazem de conta
que tudo isso não é à vera!;
mas,
apesar da monta dos obstáculos
e da xepa chinfrim,
há algo de bom na temporada,
o dia tá quente
mas passa um fresco
de quando em quando
bem rente a mim,
o refresco de cevada tá gelado,
bem cotado o da caninha
pois é de boa cepa,
e uma mutreta à-toa na folhinha
faz chegar o Carnaval,
a maior festa do planeta,
e a gente se posta
e faz piquinique
lá na bosta da geral
e vê tudo por uma fresta!

Surfei às pampas na onda média

Segundo o Sigmundo,
que não dispensa monólogo,
não é astrólogo mas dialoga com astros
toda vez que pensa,
estava uma droga
o pendão no mastro
pois a posição era indevida,
logo,
havia rastro e indício
de um estádio não propício,
mas,
como não me castro
com a comédia da vida
porque tenho cancha
e já era noite,
e sob a toga da noite
a ronda não me nota,
soltei as rédeas da prancha,
e, com garra pela rota,
surfei às pampas na onda média
de uma rádio de Sampa
que patrocinava a maior farra!,
então,
já lá pelas tantas,
que a gente se dana e morre
se do coração não bane
tanta inane emoção
tomando um puta porre,
fui à luta e furei o Lourival
que estendia no quintal
a bandeira do Palmeiras,
maior rival do meu Timão,
foi o maior banzé!,
como não houve jeito
de escapar da barafunda
pulando o muro,
ficou a onda média
plana e ridícula pra mim,
e fui surfar em cana,
e ele foi pegar jacaré
em leito do hospital
que o furo foi na bunda,
e tudo findou assim:
FIM!;
qual película da Cinédia!

sexta-feira, janeiro 13, 2006

“Cada um com o seu cada um”

Não sou raposa,
menos ainda raposa felpuda
porque sou calvo,
nem sou malandro,
sendo assim,
pra me manter são e salvo
e não virar alvo
de intriga e confusão,
não dispenso arruda,
não xereteio briga e meandro,
não dou opinião
em problema alheio
e penso sempre no meu lema:
“cada um com o seu cada um”;
por esse motivo,
não devo nada
a marido nenhum!,
que esposa considero macho
e com macho não quero cacho,
não vivo dividido
entre Sofia, Joana,
Teca e Josefina
porque divido bem
cuecas, vinténs
e os dias da semana,
pra mim,
não é questão
o "ser ou não ser?!"...
que este tema
lá na esquina não tem vez,
me dou legal com o Fisco
porque belisco por mês
um salário mirim
que quase não noto,
imagina então o fiscal?!,
meu voto é branco ou nulo
que não me regulo
por papo de eleição,
quando engulo sapo,
não banco o valentão,
e amizade já faço
achando que o sujeito
é o craque da falsidade,
um amigo-urso
que quer me dar um baque
com abraço de tamanduá,
desse jeito,
tomo o cuidado devido
e evito decepção,
e assim levo a vida na flauta,
vou indo e vindo
com a guarida da Constituição,
mas,
uma chateação
não sai da pauta,
meu combalido time,
quase falido,
meu time querido
me deixa aflito,
deprime e consterna,
faz campanha ruim,
campanha chinfrim,
campanha pingüim,
fria em cima de fria,
quando acredito
que é a hora da virada,
a coisa piora!,
apanha, leva surra, goleada,
o adversário lava a burra
e aqui esse otário
agüenta a gozação no botequim,
por fim,
ele apanha um pouco mais,
vai lá pra trás
e hiberna na lanterna!

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Não mais no um cinco cinco só!

Foi precursor da percussão
ocorrida durante o percurso
em dia de expediente
no calor da Avenida Rio Branco
e que não podia
ser tachada de acidente,
pois,
consciente recurso
o tranco no teso por definição
e indefeso pedestre
bem diante do banco,
o otário desviava a atenção,
aí,
o meliante se valia da forquilha
e lhe batia a carteira
com o salário parco,
e chegou a se gabar
de ser um marco,
mestre em pilha
e titular da cadeira
no curso de pós-graduação
da Faculdade de Gatunice,
o que enchia de vaidade
sua cara-metade
que dizia ter sido
Miss Roubalheira
na mocidade,
agora,
resmunga que é hora
da decadência da punga
face à concorrência desleal
da tunga oficial
e não arruma aposentadoria
pela Previdência Social!,
em suma,
como já ultrapassou
o limite de idade
pra fazer concurso
e vai levando a família
um dia-a-dia de dar dó
e nó na barriga,
não recusa convite
de amigas ou amigos
pra fazer sociedade escusa,
e já está incurso numa quadrilha,
quer dizer,
num bando de artigos,
não mais no um cinco cinco só!

Você é...

Você é um sabiá cantador
e decanta asas pra voar,
sabiá que sabe sabe
o sabor desse canto cantado
pelo prazer de cantar
um canto ainda mais encantador;
você é um mainá falador
se não dá vaza a seu cantar,
mainá que sabe sabe
o sabor de ser um ser solto
em seu cantar encantado,
envolto em canto que sabe a amor;
você é um pitauá, urbano
e dono de um canto afinado,
pitauá que sabe sabe
o sabor e a emoção do canto
cantado com o coração
pois sua razão de ser é ser cantor;
você é uma ave que entoa
seu canto e com ele voa
pois seu canto é nave,
chave que o peito abre de um jeito
que nada mais tem sabor
tanto quanto o seu canto tanto tem!

terça-feira, janeiro 10, 2006

Cheire de verdade essa flor

Cheire de verdade essa flor
em vez de se exculpar
dizendo a todo momento
que não é flor que se cheire
porque é de brotar
em acostamento de estrada,
porque é de medrar
em barro, vasa, água parada,
cheire essa flor
e a imagine sem praga
em jarro que enfeita
uma casa afeita ao amor,
cheire essa flor
como se não fosse
uma flor à venda
na vitrine do prazer,
tente ver as prendas
que na alma ela cultiva,
tente ver a nativa graça
que não se abala
com trauma e cinismo,
faça por onde
notar o poder do lume
que seu otimismo aviva
mesmo quando o mar
não está pra peixe,
tente inalar
o perfume amador
que se esconde
sob o odor do ofício
que com artifício ela exala,
sinta como é delicada essa flor
desavergonhada por necessidade,
e sem vaidade,
sem preconceito,
deixe que essa flor
tenha o direito
de ser flor de verdade
ao florescer no seu peito!

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Por entre fragmentos de fim de tarde

Por entre fragmentos
de fim de tarde
que a calçada tragava,
se aproximou de mim
a vendedora de amor
que enfeitava o momento
como se fosse uma flor
doce e sedutora,
e chamada felicidade,
aí,
me enchi de vaidade
e abri meus braços
com destemor e fiz alarde,
fiz o alarde que faz
quem não presta atenção
em mais nada,
exibi o sorriso
que sorria aos domingos,
fiz de improviso passos
que eram pingos de festa
e que só faz
quem rodopia com vontade,
desprezei aviso e conselho
e fui incapaz de ver
o que o espelho me dizia,
não vi que ela fazia
o queria de mim
e que só me queria
que podia fazer assim,
e ela fez o que quis
e, por um triz,
não me fez chegar ao fim!

sábado, janeiro 07, 2006

Não levaria essa vida de merda!

O que é que você
da vida tá pensando,
doutor,
empinando esse nariz
por controle remoto?!,
sei que ninguém mais diz
que vai tirar foto
em lambe-lambe,
que vai botar elepê na vitrola,
que vai manuscrever bilhetes
e remeter por via dos Correios,
pois,
hoje em dia,
a tônica é a eletrônica
embutida em tudo,
de sapatos e arreios
a robôs e foguetes,
de violas e agogôs
a criados-mudos
e panos de prato,
ou, então,
engenharia genética,
célula tronco,
coisa capaz de resolver
danos e avarias,
capaz de converter
ronco de dinossauro
em canoro assobio,
rapaz frio, bronco
e de tez pálida
em libélula plena
ou sirena cálida e poética,
contudo,
doutor,
se tivesse dado uma lida
nas letrinhas do contrato
e nas suas entrelinhas,
veria que o que vale de fato
segue com a mesma garantia,
em suma,
nenhuma!,
e não pensaria o que pensa,
não seria essa lesma
tensa e lerda,
não levaria essa vida de merda!

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Acorde, rapaz

Acorde,
rapaz,
tire essa saia justa
e saia desse armário,
se vire se for necessário,
mas,
ponha as mangas de fora,
faça alvoroço,
pinte e borde,
nem que seja à custa
de umas doses a mais,
pois o busílis é o seguinte:
a vida é à vera
e a hora não espera!;
com vergonha, canga e bílis,
na melhor das hipóteses,
você vira um poço
de gastrite, psicose,
neurose e dor de cabeça,
vamos lá,
não seja só ouvinte,
dê uma de orador também,
palpite, discorde,
dê a opinião que você tem,
em que pese
o que pode estar em jogo,
não evite bola dividida
pois rola com ela
muita emoção,
não despreze aventura
nem fogo de paixão,
e não esqueça,
quem não procura
não acha,
quem não se encaixa
fica de fora,
não sente o sabor da parte
quem faz questão
de ter tudo por inteiro,
quem deplora
uma pitada de loucura
vive uma vida de nada,
uma vida sem a arte do tempero!

Barraca do Moa (Pendurado na palavra)

Saí de lá um farrapo,
frangalho indecente
pendurado na palavra
por um fiapo,
e esse fiapo
quebrava meu galho
literalmente!,
aliás,
uma palavra à-toa
jogava mais
que canoa em alto-mar,
fazer frase?!,
nem pensar!,
em outras palavras,
saí de lá
praticamente
sem sair do lugar,
até um verso chinfrim
versou contra mim
e me pegou pelo pé,
e nem sei eu
se pelo dele ou se pelo meu!,
também...
veja você,
como um calça-curta
incapaz de fraude,
que jamais se furta
ao mando da patroa,
fazia feira na Garibaldi
de saca na mão
quando bati de frente
com a barraca do Moa
botando gente pelo ladrão,
e gente boa-praça,
gente ilustre,
e cachaça, cerveja
e só quitute bom!,
aí,
dei um chute no balde,
ou seja,
mandei plantar batata a dita-cuja
e, de lambuja,
agrião, tomate,
abacate e pimentão,
entretanto,
a hora voa nessa hora,
quando dei o fora,
já estava escuro
e eu pronto
pra depenar o Zorro
e desmascarar o Tonto,
e até hoje tô tomando
esporro da patroa
por causa desse furo!,
mas não faz mal não,
o pau ela pode quebrar,
pode quebrar até o meu!,
mas eu juro,
e não é jura à-toa,
vou voltar
à barraca do Moa,
e vou nem que seja de maca!

Esse caminhante

Esse caminhante
do arco-da-velha
não dá ponto sem nó,
até duende
prende em flagrante
pra virar o caminhante mor!,
mas tem só botas chulés
e um parco par
de barro como seus pés,
na cozinha,
conta anedotas,
bebe pinga e groselha,
impreca e xinga,
come sardinha frita,
pita um cigarro fedorento
e tira um sarro
no assento da Amélia
que é levada da breca,
na sala,
da água pro vinho
muda a figura,
arrota camarão
e nem o molho esquece!,
conta lorotas,
exala pura emoção
quando fala em caminho,
aventura e caminhada,
esse caminhante
adota a bandeira
que está mais à mão,
a primeira que aparece,
desce a escada,
passa pelo portão,
pega a estrada de olho fechado
pra olhar pro lado
e não ver o que acontece!

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Sou moleque de rua

Sou moleque de rua,
sou de pegar no tranco
e de sentar a pua
ladeira abaixo
sem pisar no breque
pra levar
o que você acha bom,
branco, marrom,
sou moleque de lero-lero,
besteira e gíria,
na hora da dura,
na hora do esculacho,
sofismo,
apesar de não saber
o que quer dizer,
e dou show de cinismo,
é minha armadura,
e vou esperando que Odin
mande Valquíria
vir atrás de mim,
e vou esperando vir a bala,
a vala comum,
por fim,
o Valhala,
se é que vou ter um!,
e vou assim,
berro com o ferro na mão,
uso gazua,
mixa chinfrim
que abre fechadura
mas não me abre porta
nem a comporta
que suporta
minhas chagas e mágoas,
as feridas
que fizeram sua plaina,
sua lixa e seu formão,
mas não desentortaram
minha vida torta,
não alinharam
minha faina retorcida,
é isso aí...
da ralé sou o lixo,
sou o bicho no seu pé
que lhe tira calma e sossego,
sou um nego
que não lhe importa
e que você despreza,
alma
que está na sua mira,
que você reza pra ver morta!

terça-feira, dezembro 27, 2005

Você sabe quem é!

Foi um porre a gravidez,
crises melancólicas,
várias cólicas e varizes,
ausência de sono,
incontinência urinária
e enjôos até o nono mês,
ainda por cima,
se havia clima
pra paixão e sexo,
ele entornava o caldo
provocando um mal-estar
e o saldo
era um par perplexo,
ponto final no tesão,
cansou de causar
tensão, percalço e corre-corre,
cansou de deixar
tonto o pessoal
com rebate falso,
em especial,
em feriado prolongado
e fim de semana,
e o remate foi de amargar!,
no meio do parto,
apesar do farto indício
de que ia ser normal,
só saiu com cesariana,
e o estrupício
já nasceu de ovo virado,
emburrado e muquirana,
uma mixórdia
de complexos e vícios conexos,
além disso,
magriço, desdentado e feio,
quer dizer,
cheio de bons indícios
de que nascia na medida exata
pra ser empata
e pomo de discórdia,
e como
saiu já com seus azeites
e de mal com a vida,
de saída,
maldisse a sorte
em razão do corte
no cordão umbilical
e reclamou do leite maternal,
você sabe quem é!
e sabe de sobra,
sabe até
que ia ajudar na rima
o nome dessa obra-prima!

sexta-feira, dezembro 23, 2005

É isso aí!

Desafina o sorriso banguela
que sorri aos arrancos
o branco dissabor desse rapaz
que pra comer
só tem remedo de comida,
e que nada faz
porque nada tem pra fazer,
se abomina a criança-menina
e mulher bem cedo se revela,
mulher da vida,
sem sequer ter vigor de moça,
e feia vai envelhecer
muito antes dos trinta
e cheia de falta de esperança,
se amofina o negro braço
com a negra cinta,
dá braçadas de sol a sol
e se afoga na droga de poça,
poça de cansaço
onde cada faroleiro
trata de si e tudo o mais é farol,
é isso aí!,
se alucina quem sobra
nessa rua mestiça,
sua e se esvai
nessa mestiça estrada
e cai num mestiço bueiro,
é consumido pela loucura
esse desvalido mestiço
que se desdobra
à procura de sentido,
mas acha mais desespero
a cada mestiça esquina que dobra!

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Sei lá!, sei lá!

Sei lá!, sei lá!,
e não me acanho de dizer
sei lá!, sei lá!,
e já tá
de muito bom tamanho!,
mas,
de quando em quando,
e todo mundo sabe
muito bem
como é que é...
me assanho um pouco mais,
me acho mais capaz,
acredito
que me cabe dizer mais!,
ser mais profundo...
mais...
mais... sei lá o quê?!...
aí,
se não afundo totalmente,
constato,
praticamente no ato,
que de fato,
na hipótese pior,
teria sido bem melhor
se eu tivesse dito:
sei lá!, sei lá!,
e olhe lá...

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Uma senhora marquesa!

Beleza e raro encanto!,
caro marquês,
uma senhora marquesa!,
marquesa e tanto!,
da mais alta qualidade!,
pois,
apesar da idade,
nada está fora do lugar!,
não há falta nem excesso!,
mas,
confesso,
fiquei mais animado
em função da maciez
e dos babados!
e muito tentado,
caro marquês,
a virar freguês assíduo
do seu marquesado
pra tirar uma casquinha,
mas,
muito na minha!,
é claro,
porque não sou indivíduo
chegado a exageros,
aliás,
seria o derradeiro nego
a cometer algum deslize,
a abusar do aconchego
que me foi franqueado
com tanta nobreza,
por fim,
pra que não precise
usar sua marquesa
mais do que o necessário,
me faça uma gentileza,
me diga em que antiquário
consigo comprar uma pra mim!

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Resta algo de bom ainda!?

Moradia está em falta
nesta maravilha de cidade,
quando não falta,
na maioria
é moradia modesta
em favela, cortiço, estalagem,
paragem que revela a miséria
de pilhas e molhos de gente
e a falta de tudo
só não salta aos olhos
dos indiferentes e dos omissos,
e onde não há grude
a necessidade faz a festa,
estalagem, favela e cortiço
onde só camaradagem presta,
onde só resta fazer pilhéria
com a vicissitude da família
que a escuma
precisa achar um jeito
de achar alguma graça,
que maravilha de lugar!,
soma aos defeitos
de Tóquio, Roma e Bruxelas
as mazelas de Mombassa,
Luanda e Bagdá,
e com direito a deserto
onde até miragem há!,
criança na escola,
segurança e hospital
em anúncio e propaganda
de Pinóquio, Pafúncio e Ali Babá,
mas,
oásis só descola
quem é o tal e está por cima
ou o esperto
que vive levando bola,
contudo,
resta algo de bom ainda!?,
a festa de fevereiro!
pra ralé tirar o pé do lodo
e com ele mostrar
todo o seu valor
ao som do entrudo
que anima Olinda e Salvador!

Amores de fachada

Você mente,
mas não adianta
tanta farsa,
não adianta
tanta fraude,
por mais que você
invente e finja
ardentes abraços,
por mais
que se esbalde
em outros beijos
e tinja de vermelho
outras bocas,
por mais que vá
às tantas e loucas
à procura de prazer,
por mais
que faça ajustes e juras
nos braços de comparsas,
por mais que garanta
estar feliz
diante do espelho,
não adianta,
esses amores
não vão dar em nada,
são embustes,
pois,
como seu coração diz
quando encontra o meu
e a nossa paixão bate:
“são amores de fachada
e estão por um triz!”

Cadê Vênus?!, cadê Afrodite?!

Até eu fiquei surpreso,
mas,
acredite,
nada mais, nada menos
que um convite
de Vênus e Afrodite!,
e destaco o testemunho de peso
do meu amigo Baco
que estava comigo na mesa,
comia e bebia
e botava a despesa
na minha conta
e me deixava às tontas
como sempre faz,
e ainda foi capaz
de se achar no direito
de dizer que foi afronta
ter sido assim preterido
e bateu no peito
pra falar de orgulho ferido,
por fim,
não fez por menos,
me deixou na mão,
é...
como por aí se diz,
durma-se com um barulho desse!,
e, acredite,
foi exatamente o que fiz,
quando acordei e dei por mim,
cadê Vênus?!, cadê Afrodite?!

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Não faz mais fé nem a sua avó!

Deixe de manha!,
menina,
que de recatada e inibida
você não tem nada não,
é mais exibida,
expõe bem mais
que vitrina de butique
no pique da liquidação!,
por isso,
já não cabe
essa sua manha,
todo mundo sabe
que você vai fundo,
assanha e provoca
até que a rapaziada fique
em ponto de bala,
depois,
coloca esse véu
de menina pudica,
fica envergonhada
com piada picante,
se abala
e até fica de quatro
diante de cantada
mais atrevida,
e fala que estava só
representando um papel
no teatro da vida,
menina,
qual é?!,
tenha dó!,
nessa conversa de peça
não faz mais fé nem a sua avó!

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Se conselho fosse bom... (III)

Não empaque
nem encalhe agora
que tem chance
de ser destaque do bloco,
não perca o foco
em hora tão importante,
mas...
não se espalhe demais
diante dos holofotes,
não se lance ao pote
com muita sede!,
não deixe fora da rede
nenhum peixe,
não despreze nenhum fato,
desdobre a atenção
e não menospreze
minúcia e detalhe,
bote razão, bom senso e astúcia
em atitudes e atos,
e cobre bem mais
de seu talento e de suas virtudes,
e duvide
que sejam imensos e nobres,
não coloque quem decide
contra a parede
em nenhum momento,
mantenha bom contato
com quem
pode ter papel relevante,
não entre em choque
com ninguém,
principalmente
com quem
pode entornar o caldo,
tenha tato e tento
no gingado e na fala,
não gaste todo o saldo
num mesmo instante,
nem todas as balas
num mesmo alvo,
mesmo achando estar a salvo,
não entre de sola
no outro time
no calor da zanga
nem substime
quem esteja de joelhos
e aparente ser
um traste insignificante,
e mais dois lembretes:
nunca deixe de ter
coelho na cartola
e carta na manga do colete!,
e lembre-se,
se conselho fosse bom...

De um obscuro quarto

De há muito esquecido
num fundo de armário,
aquele bilhete premiado
que foi vendido
por algum estelionatário
numa calçada da Zona Sul
e que havia provocado
até então
gozação e gargalhada,
naquela madrugada,
completou o desassossego
do nego de idade avançada
que levou do patrão o azul
sem dó nem piedade
por razão de nada
e perdeu o só emprego
que tinha nesse mundo;
foi tal qual grito em falsete
berrado às pressas
ao ouvido de um mouco
por um louco vagabundo
que leu às avessas
o que nele estava escrito;
foi tal qual escada
entre risos oferecida
a quem está quase frito
na incandescência
de um último piso
e com um aviso:
saída de emergência!;
e uma escada autista
com pinázios invisíveis
e nenhum degrau à vista;
foi tal qual topázios puros,
mas insensíveis
e fartos de serem topázios,
que se diluíssem gota a gota
sem compaixão nem clemência
quando seguros
por aquelas mãos necessitadas
mas rotas e impotentes;
de repente,
uma rude flecha-de-parto
fez uma brecha
na quietude da madrugada
e foi ouvido um estampido
vindo de um obscuro quarto.